Autor: Daniel Silva Gomes; Professor de Artes do IFBA - Camaçari
Minha Vó era filha de escravos, nasceu durante a vigência da lei do ventre livre,
portanto, "livre", tinha verdadeira paixão pela Princesa Isabel, era de São Felix.
Dona Joana como era conhecida lá por Cachoeira e São Felix andava com seu eterno
xale negro de crochê, alias usou luto ate sua morte, não admitia nenhuma roupa que
tivesse a predominância do branco, lembro-me quando comecei a trabalhar dei a ela
uma peça de tecido branco e preto, ela ficou muito emocionada com o presente, mas
não fez um vestido apenas guardou-o minha prima Gilcélia, alias professora Gilcélia,
me explicou o porque e eu dei outra peça preta e branca, assim era Dona Joana.
Quando ela vinha pra Bahia, ou seja como ela chamava Salvador, ficava em nossa
casa, na casa de Seu Felipe, meu pai, homem branco e apaixonado por ela que a
chamava de Minha Velhinha e Dona Vicentina minha mãe é a filha caçula de Vovó.
Ela trazia os apetrechos para fazer charuto, a faquinha de sete tostões, o fumo
enrolado em papel de jornal e as folha nobres para encapar o charuto, e a cola feita
com resto de pão que nos deixávamos. Sentava num tamborete atrás da porta da rua
e ficava vendo o movimento as pessoas que passavam e a nós que não ficávamos
quietos em nenhum instante, observava as pessoas educadas que a cumprimentava
e as que não.
Certo dia estávamos ela e eu sentados na porta de casa quando passou uma moça
branca que morava numa ruas atrás da nossa na Barros Reis, nem preciso dizer que
nem olhou para nós, minha Vó deixou a moça se afastar e me disse: "tão orgulhosa e
mal educada mas você viu a taboca do nariz dela? Ali tem". Eu devia ter uns 11 anos
e achava a moça muito bonita por causa dos olhos esverdeados e dos cabelos louros,
fiquei decepcionado porque Vovó derrubara o mito da perfeição que essa moca tinha
pra mim. Passei a observá-la desde então, e já não a achava tão bonita, e até
magoado porque ela não falava conosco, só fui resgatá-la num futuro próximo quando
fiquei adolescente, e me tornei um "moreno" de não se jogar fora, então ela passou a
me dar bola, mas seu nariz não me deixou se aproximar.
Vovó era uma figura fantástica contava historias causos de meu avô que era tocador
de viola e festeiro.
Mas esses causos são pra outra ocasião.
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