Autor(Daniel Silva Gomes Professor de Artes do IFBA - Camaçari )
Tia Julia que figura! Baixinha em torno de 1,46 de altura ou baixura? Era o ser
humano mais divertido que eu já conheci, tinha uma risada rasgada que se sacudia
toda, sempre tinha uma malandragem na voz, tipo: quando estávamos arrumados: "ta
todo lorde"... "pela hora" ..."epa rei" e assim por diante, não me lembro de vê-la triste
ou se queixando da vida.
Tia Julia era mais velha que mainha, e por isso não a respeitava tanto como a
seriedade de mainha exigia, sobretudo com relação nós, que éramos os únicos
sobrinhos que moravam em Salvador e que ela tinha contato ais direto.
Todo sábado a noite ela ia lá em casa, chegava por volta das sete e meia da noite,
contava piadas, nos ensinava a dançar samba de roda e forró, tinha uma expressão
que ficou gravada em cada um de nós "epa rei!" contava os casos mais engraçados
que tínhamos ouvido até então maninha com sua seriedade de Testemunha de Jeová,
religião que professamos dizia: Julia!!!. E ela: ora Tico que besteira (Tico era o nome
de mainha na intimidade da família) e prosseguia contando suas piadas.
Lembro-me de uma vez que ela contou relembrando sobre uma personagem de São
Felix: que dizia : "mamãe batata me faz mal e a mãe dizia: por que e ela respondia :
aquilo, mãe aquilo mãe aquilo", se referindo a menstruação.
Outro personagem era Creanto que dizia: "mãe vou cagar e repetia: mamãe vou cagar! e a mãe respondia irritada; caga e come Creanto." Aquilo nos fazia ter crises de riso e minha mãe de
frustração por querer nos manter na linha e tinha aquela tia que nos tirava dos rumos.
O melhor momento nas visitas de sábado era um programa da Radio Sociedade da
Bahia , que era de música nordestina, um forró gostoso e ela dançava com todos nós as
musica sde Luis Gonzaga, Trio Nordestino, Anastácia, etc, era super divertido.
Tinha dias que ela resolvia lembrar das musicas de Samba de Roda, e nos ensinava o
sapateado, antes Brown, nós já conhecíamos o refrão: "tu não faz como passarinho
que fez o ninho e avoou voou ...voou"
Quando ela anunciava que ia embora era um Deus nos acuda, porque a chave da
porta desaparecia, ate minhá mãe agir com o cinturão de meu pai na mão convencer a quem dera sumiço na chave era outro quarto de hora de muita diversão.
Tia Julia era malondrona, cozinheira num box da feira de Santa Bárbara, na Baixa dos Sapateiro, nunca casou mas sempre teve seu homem, era católica mas sempre vivia num terreiro da
macumba, quando ia a São Felix, se escondia numa casa de conhecidos em
Cachoeira por uns dias, e freqüentava as casa de Candomblé que lá existe, mas sem
minha Vó Dona Joana saber, já que a mesma não gostava de Candomblé.
Minha Vó era um mistério, pertencia a Irmandade da Boa Morte, negra filha e
escravos, mas não gostava de macumba, e Tia Julia apanhava dela apesar da idade
se ela soubesse que tava metida em casa de caboclo.
Certa vez Tia Julia e a tia Nicinha, quarentonas, foram para Cachoeira e lá ficaram numa casa de de candomblé Dona Joana soube, assim como tudo se sabe nas cidades do interior, foi buscar as duas e meteu as mãos nelas que foram para São Felix apanhadas e caladas.
Minha tia Julia depois de curtir muito a vida, não faltar as festas do Bonfim, Conceição,
Rio Vermelho e etc. morreu, foi como ela dizia "um pagode" "pela ordem", deixou
Dona Nieta, e Dona Tico suas irmãs vivas, mas são outras historias.
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